Senta que lá vem história.

O ano era 1999. Primeiro estágio, que se transformou no meu primeiro emprego. Na Bolsa de Valores de São Paulo, área de marketing e comunicação.

Eu já tinha saído de Botucatu pra morar na “selva” que é São Paulo, fazia faculdade e comecei a estagiar na Bolsa. Lembro bem que comprei um terninho cinza para a entrevista e praticamente era meu uniforme de trabalho. Eu me sentia chique, poderosa, A EXECUTIVA naquele terninho, usava sempre.

Ao longo dos meses fui me adaptando ao trabalho, às pessoas, me dava bem com todo mundo e tenho amigas de lá até hoje. O fato é que eu me sentia importante passando em frente o Pregão, “do meio”, me sentia parte de algo grande mesmo, me sentia confortável.

E, como toda pessoa no mundo, tinha dias piores e melhores. Num destes dias piores, não me lembro se por algum problema pessoal ou profissional, o gerente passou pela minha mesa e disse: “Leticia, dá uma passada na minha sala.”

Gelei.

Pra você se situar na hierarquia:
Presidente
Gerente de Marketing
Diretor de Marketing
Supervisor de Marketing
Analista de marketing
Assistente de Marketing
Eu (estagiária)

Eu só tinha conversado com ele na última entrevista do processo de seleção e achava que ele nem sabia meu nome.

– “Pois não, Luís.”
– “Senta, Letícia, queria conversar com você.”

Ai meu Deus, eu tava com meu terninho cinza, fazendo bem o meu trabalho, todo mundo me adorava, o que eu tinha feito de errado?? 

– “Então Leticia, eu percebi que hoje você não está com boa cara. Aliás, tenho percebido que você anda meio chateada.”

Nesse momento pensei comigo, “Nossa, que simpático, se preocupa pelos funcionários.”

Respondi que estava com um problema, mas que ele não tinha porquê se preocupar.

E aí, veio o tapa na cara:
– “Letícia, vou te dar um conselho. Seja menos transparente.”

E ele começou com um grande discurso, que no mundo empresarial eu não poderia simplesmente mostrar os meus sentimentos, que ninguém teria porquê perceber se estou triste ou contente, que eu tinha que ser apenas profissional.

Aprendi muito nesse dia. 

O que ele me disse nas entrelinhas é que as pessoas “bem-sucedidas” tinham uma “vida profissional” e outra vida fora do trabalho. Que não era só o terninho que contava, mas a aparência como um todo. Na verdade eu já tinha reparado nisso numa festa da empresa, onde as pessoas “se revelavam” depois de uma taça de vinho.

Mas não foi isso, realmente, que aprendi. 

Eu aprendi que assim era o mundo profissional. E teria que me adaptar às regras do jogo, mesmo sem estar de acordo.

A experiência foi me dizendo que ele tinha razão. O que contava era muito mais do que o meu trabalho. E mesmo nos meus seguintes empregos, inclusive na agência de publicidade, que me sentia mais em casa que nunca, percebi que existiam regras no “mercado de trabalho” que são universais.

Corrijo, são regras brasileiras.

Quando eu comecei a trabalhar na Europa vi que as pessoas, no trabalho e fora dele, são TRANSPARENTES.

As pessoas são as mesmas, dentro e fora da empresa. Nunca ninguém se “revelou” numa festa, nem escondeu seus problemas num terninho… 🙋🏻‍♀

Foi uma grande revelação que fui descobrindo ao longo dos anos, e que me faz sentir “europeia” quando tenho que enfrentar uma situação desagradável. Aliás, tem cada problemão de vergonha alheia que nem te conto. Bom, conto sim, no próximo e-mail. 😁

Você tem a mesma sensação que eu do mercado de trabalho no Brasil? Como imagina que seja aqui na Europa? Adoraria saber se essa “imagem” que tenho do mercado de trabalho no Brasil ainda é real ou não…🤔

Bjs


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