Quanto tempo, hein?

Aqui na Espanha a dimensão tempo/espaço mudou consideravelmente nos últimos dias. Hoje é dia 17 de março, estamos de quarentena há somente 4 dias e parece que o dia tem 48 horas.

Estou enrolando pra escrever este texto faz mais de um mês. Antes mesmo do Corona Vírus. Era tanta coisa pra contar, pra compartilhar que acabei me bloqueando. Me fechei no casulo e comecei a repensar a vida, antes mesmo da crise estourar. 

O que me fez parar foi um episódio no dia do aniversário do Leo, meu filho pequeno que estava fazendo 4 anos. Eu estava literalmente trabalhando dia e noite, com prazos e urgências, era 14 de fevereiro e o corona ainda tava lá na China, começando a estourar na Itália. Ninguém imaginava.

O mundo, para mim, parou no dia 14 de fevereiro de 2020 por causa de um donut. Você sabe o que é um donut? É este doce 👇🏼

Pois é, resumindo resumão, o que aconteceu foi que no dia do aniversário do Leo não tive tempo nem de sair para comprar um bolo, e acabei colocando 4 velinhas num donut que tinha em casa para cantar parabéns. Ele, no dia seguinte, perguntou se não podíamos comemorar o aniversário dele com um bolo no lugar de um donut. 💔💔

O mundo parou para mim.

Comecei a reavaliar minhas prioridades, o que eu estava fazendo com o meu tempo livre e como estava me dedicando à minha família. Entrei numa crise existencial, queria largar toda essa história de empreender e procurar um emprego, que me desse estabilidade financeira e um horário fixo. Eu não estava sabendo gerenciar a minha liberdade, depois de tanto tempo.

Aí chego num ponto crucial: a liberdade.

Porque em relação à estabilidade, a Carol e o André, meus sócios, sabiamente me convenceram que a estabilidade não existe, que é uma ilusão.

E então eu voltei a focar na minha liberdade, que foi o principal fator que me fez mudar de país, e agora, empreender. Era isso que eu tinha que valorizar, focar e gerenciar.

Até que tudo isso virou história.

Os dias foram passando muito rápido, as notícias foram evoluindo, e faz uma semana anunciaram o fechamento das escolas em Madrid. Três dias depois, o “estado de alarma”, todo mundo confinado dentro de casa. Ontem, fecharam as fronteiras.

O tempo passa diferente dentro de casa.

A sensação de estar proibido de sair é estranha.

Eu juro que tinha decidido me dedicar mais à minha família, gerenciar melhor o meu tempo, focar só no que é importante.

Mas eu, sozinha, não consegui. O que o donut me disse, o Covid19 está dizendo para o mundo. Principalmente que não temos o controle de nada, nem mesmo da nossa própria liberdade.

Refleti muito durante os últimos dias e cheguei a uma única conclusão… Passei por três grandes episódios que mudaram definitivamente a minha vida e a minha forma de me relacionar com o mundo:

1. O falecimento da minha mãe quando eu tinha 17 anos.
2. A mudança para a Europa quando eu tinha 24 anos.
3. O nascimento do Rafa quando eu tinha 29 anos.

Cada um destes três episódios me ensinaram a viver a vida de outra forma e há uma palavra em comum para estes três momentos: ACEITAÇÃO.

1. Quem já passou pelo luto de alguém muito próximo, sabe que primeiro vem a negação, depois a culpa, mas a paz só chega com a aceitação da realidade.

2. Na mudança de país passei pela fase de negação, querendo manter antigos hábitos, depois passei pela culpa de estar feliz longe das pessoas que eu amo, e só quando eu aceitei que as pessoas viviam de outra maneira e a escolha dependia de mim, foi quando realmente me adaptei.

3. No nascimento do Rafa a vida me provou que você pode controlar os seus atos, mas não determinar como vai ser a vida de outra pessoa, passei pela fase de negação do meu instinto, querendo ser a mesma pessoa de antes. Depois, passei pela culpa de não conseguir e finalmente, só com a aceitação que a vida realmente é diferente depois dos filhos foi que eu consegui ser feliz. 
(Mas tenho que adicionar que esse é o grande desafio da minha vida, e muitas vezes retorno à fase de negação e culpa. #souhumana)

E agora, voltando ao ponto da mudança de país e o momento atual, eu só vejo um caminho para quem tem uma vinda programada para a Europa: aceitação.

O mundo vai mudar depois disso, e eu que estou aqui, garanto, a Europa já não será a mesma depois do Corona Vírus. As coisas já não serão como antes. É claro que ninguém sabe ao certo quanto tempo vai durar, quais vão ser as consequências, quem vai ter um emprego ou não, como vai ficar a economia. 

Mas há uma certeza em comum: a crise vai passar. 

Então, reflita sobre essa palavra: ACEITAÇÃO.

Aceite que a Europa parou. Aceite que existe um vírus que mudou o curso das coisas. Aceite que as decisões agora não dependem de você.

A partir dessa aceitação, aproveite o tempo disponível (que eu já aviso que é bem escasso se você tiver filhos em idade escolar) para focar no seu objetivo. A Europa parou, mas não morreu. E assim que a crise passar, as pessoas vão ter que levantar a economia de novo. 

Então, aprenda a língua do seu novo país. Pense nas profissões do futuro, digitalize-se. Os empregos “tradicionais” vão estar disputadíssimos quando a crise passar. Não venha para cá pensando em trabalhar de garçom ou de atendente num supermercado, essas profissões vão valer ouro, o trabalho vai voltar a ser literalmente o ganha-pão do europeu. Se você fala três línguas, mais chances. Se você domina as novas tecnologias, mais. Se você se adapta ao mercado de crise, a curva só pode ser crescente.

Aceite que as coisas vão mudar e quebre a sua cabeça pensando em soluções para depois da crise. Eu estou nesse momento, inclusive aceito sugestões 😅.

Vamos falar sobre o futuro, aceitando o presente?
Responda esse email e vamos conversando, isso não vai estar proibido e viva o wifi! 

Beijos (com mais de um metro de distância).

Leti

PS: estou fazendo diariamente o exercício de agradecer pelo confinamento em casa, porque isso significa que nem eu nem a minha família precisamos de cuidados de médicos. #bepositive.


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